Em entrevista à Arpen/RS, o professor Ricardo Felipe Custódio analisa o futuro da inteligência artificial nos Cartórios
Imagine um cartório em que certidões são emitidas em minutos, documentos centenários são digitalizados automaticamente com precisão cirúrgica e sistemas inteligentes detectam tentativas de fraude antes mesmo que aconteçam. Essa não é uma visão futurista: é a realidade que já está sendo construída nos cartórios de Registro Civil brasileiros.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser ficção científica para se tornar uma poderosa aliada na modernização dos serviços registrais. No centro dessa transformação está o professor Ricardo Custódio, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que lidera uma verdadeira revolução silenciosa no sistema registral do país.
Como supervisor do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Registro Civil (LabREC) e coordenador do projeto de IA do Operador Nacional do Registro Civil de Pessoas Naturais (ON-RCPN), o professor Custódio tem uma missão clara: utilizar a tecnologia para tornar os cartórios mais eficientes, seguros e próximos do cidadão, sem jamais comprometer a confiabilidade que é a marca registrada do Registro Civil.
Os resultados já são visíveis. Sob sua coordenação, foi publicada a primeira Cartilha de Boas Práticas para o Uso Responsável da IA no Registro Civil, um marco na orientação ética para o setor. Dois workshops inovadores reuniram especialistas de diferentes áreas para pensar soluções práticas. E, no CONARCI 2025, veio o grande anúncio: o lançamento da ARIA, a primeira Inteligência Artificial desenvolvida especificamente para o Registro Civil brasileiro.
Nesta entrevista exclusiva à Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Rio Grande do Sul (Arpen/RS), o professor Custódio explica, em linguagem acessível, como a IA está transformando a rotina dos cartórios, fortalecendo a segurança dos dados mais sensíveis da população e, principalmente, como essa revolução tecnológica está tornando a vida do cidadão mais simples, sem perder de vista os valores fundamentais que fazem do Registro Civil uma instituição de confiança há mais de um século.
Confira a seguir:
Arpen/RS – Na prática, como a Inteligência Artificial pode ajudar na rotina dos cartórios de registro civil?
Ricardo Custódio – A IA está revolucionando os cartórios de forma muito concreta e imediata. Pense no registrador que, todos os dias, precisa conferir centenas de formulários, digitalizar documentos antigos ou responder às mesmas perguntas básicas dezenas de vezes. A Inteligência Artificial atua exatamente nesses pontos, automatizando tarefas repetitivas e liberando tempo para o que realmente importa: a análise especializada e o atendimento humanizado.
Na digitalização de acervos históricos, por exemplo, já utilizamos sistemas de Reconhecimento Ótico de Caracteres (OCR) que conseguem “ler” documentos manuscritos do século XIX com uma precisão impressionante. Esses documentos, antes inacessíveis para buscas, tornam-se totalmente pesquisáveis em formato digital. É como ter um arquivista incansável trabalhando 24 horas por dia.
Para o atendimento ao público, desenvolvemos chatbots especializados que respondem dúvidas comuns no Balcão Virtual, horário de funcionamento, documentos necessários, taxas, deixando a equipe disponível para casos mais complexos. O resultado? Filas menores e atendimento mais ágil.
Mas é importante esclarecer: a IA não substitui o registrador. Ela funciona como um assistente inteligente, um “copiloto digital” que potencializa o trabalho humano. O registrador continua sendo indispensável para decisões jurídicas, análises complexas e para garantir que a fé pública seja preservada. A tecnologia apenas torna seu trabalho mais eficiente e estratégico.
O resultado final é um cartório que mantém toda sua confiabilidade tradicional, mas opera com a agilidade e precisão que o cidadão do século XXI espera.
Arpen/RS – O registro civil lida com dados sensíveis da população. Como a IA pode ser usada para melhorar a segurança e evitar fraudes?
Ricardo Custódio – A segurança de dados é, sem dúvida, nossa maior responsabilidade no registro civil, e a Inteligência Artificial pode ser nossa melhor aliada nessa missão. Ao contrário do que muitos pensam, a IA não fragiliza a segurança, ela a fortalece exponencialmente.
Desenvolvemos algoritmos que funcionam como “detetives digitais”, analisando milhares de registros em segundos e identificando padrões suspeitos que seriam impossíveis de detectar manualmente. Se alguém tentar registrar um nascimento com dados inconsistentes ou solicitar uma certidão com informações que não batem com nossos registros oficiais, o sistema emite um alerta imediato para análise do registrador.
Na autenticação biométrica, a precisão chegou a níveis surpreendentes. Conseguimos validar identidades através de reconhecimento facial e digital com margem de erro quase zero, tornando extremamente difícil qualquer tentativa de fraude de identidade.
Um dos avanços mais importantes é o uso de blockchain para garantir a integridade dos documentos. Cada registro fica “blindado” digitalmente, qualquer tentativa de alteração deixa rastros permanentes e detectáveis. É como ter um cofre digital inquebrável.
Para proteger a privacidade, utilizamos técnicas de anonimização inteligente. Quando precisamos processar dados sensíveis, o sistema automaticamente os “mascara” durante o processamento, revelando apenas o resultado final. É como trabalhar com códigos secretos que só se revelam quando necessário.
O mais importante é que toda decisão de segurança permanece transparente para o registrador. Se o sistema detecta algo suspeito, ele explica exatamente o motivo, divergência biométrica, inconsistência temporal, dados conflitantes. O registrador sempre tem a palavra final, mas agora conta com um sistema de alerta preventivo que funciona 24 horas por dia.
Arpen/RS – Para o cidadão, qual seria a principal vantagem de um cartório que usa IA?
Ricardo Custódio – A grande transformação para o cidadão é poder resolver questões importantes da vida sem burocracia desnecessária, mas com toda a segurança jurídica que sempre caracterizou o registro civil.
Imagine um casal que decide se casar e precisa dar entrada na habilitação matrimonial. Tradicionalmente, eles enfrentam múltiplas idas ao cartório: primeiro para entregar documentos, depois para conferências, correções e aprovações. Com a IA, o sistema já valida automaticamente a documentação no momento da entrega, confere dados aos órgãos competentes e identifica imediatamente qualquer pendência que precise ser resolvida. O que antes exigia várias visitas ao cartório agora pode ser finalizado em uma única ida, com o casal saindo já com a data do casamento agendada.
Para serviços digitais, a diferença é ainda mais marcante. Uma certidão de nascimento solicitada online pode ser emitida em tempo real, com validação automática de segurança, disponível para download imediato. E o cidadão pode fazer isso de casa, no fim de semana, a qualquer hora do dia ou da noite.
Mas talvez o benefício mais importante seja a confiabilidade ampliada. Com sistemas inteligentes detectando inconsistências e validando documentos automaticamente, o risco de erros diminui drasticamente. Isso significa menos retrabalho, menos idas e vindas ao cartório, menos dor de cabeça para resolver problemas posteriores.
A IA também democratiza o acesso. Um idoso com dificuldade de locomoção pode usar assistentes virtuais para esclarecer dúvidas simples. Uma pessoa com deficiência visual pode interagir com sistemas de voz inteligentes. A tecnologia torna os serviços registrais verdadeiramente inclusivos.
O resultado é simples: o cidadão ganha tempo, comodidade e tranquilidade. Continua recebendo a mesma segurança jurídica de sempre, mas agora com a praticidade que a vida moderna exige. É o melhor dos dois mundos: tradição confiável e inovação inteligente.
Arpen/RS – O Operador Nacional do Registro Civil (ON-RCPN) tem se destacado na liderança do uso de Inteligência Artificial no sistema registral brasileiro. Quais iniciativas concretas já foram realizadas e qual é o próximo passo nessa jornada?
Ricardo Custódio – O ON-RCPN assumiu uma posição pioneira ao reconhecer que a transformação digital do registro civil brasileiro não pode acontecer de forma fragmentada. Nossa estratégia foi criar um ecossistema integrado de soluções que beneficie todos os cartórios do país, independentemente do seu porte ou localização.
Começamos pela base: o conhecimento. Realizamos dois workshops fundamentais que reuniram registradores experientes, pesquisadores acadêmicos e especialistas em tecnologia. O primeiro, com foco internacional, trouxe experiências de outros países. O segundo, mais técnico, resultou no desenvolvimento de protótipos práticos testados em cartórios reais. Esse diálogo entre teoria e prática foi essencial para entendermos as necessidades genuínas do setor.
Dessas discussões nasceu nossa Cartilha de Boas Práticas para o Uso Responsável da IA no Registro Civil, o primeiro documento do gênero no país. Não é apenas um manual técnico, mas um guia ético que orienta registradores sobre como implementar IA sem comprometer a confiabilidade que caracteriza nossa atividade.
O grande marco veio no CONARCI 2025 com o lançamento da ARIA, Assistente de Registro com Inteligência Artificial. A ARIA já está operacional em sua primeira versão, oferecendo atendimento inteligente via chat e reconhecimento automático de documentos (OCR). Os cartórios interessados podem testá-la no endereço https://aria.registrocivil.org.br/.
A partir de janeiro de 2026, a ARIA estará disponível gratuitamente para todos os cartórios brasileiros. Mas isso é apenas o início. Nossa visão é transformá-la em um verdadeiro ecossistema de apoio: desde assistência para procedimentos complexos até integração com sistemas nacionais de validação de dados.
Estamos construindo o futuro do registro civil brasileiro, mas sempre com os pés no presente, respeitando a tradição, preservando a fé pública e colocando o cidadão no centro de tudo.
Arpen/RS – O senhor é um dos coautores do livro “Inteligência Artificial no Registro Civil no Brasil”, recentemente lançado pela Editora Método. O que motivou a criação desta obra e como ela pode contribuir para a transformação digital dos cartórios brasileiros?
Ricardo Custódio – Esta publicação nasceu de uma necessidade muito concreta que identificamos durante nossos workshops e pesquisas: existia uma lacuna enorme entre o potencial da Inteligência Artificial e sua aplicação prática no registro civil brasileiro. Muitos registradores demonstravam interesse genuíno pela tecnologia, mas faltavam referências sólidas, diretrizes claras e exemplos aplicáveis à nossa realidade.
Junto com meus coautores, Gustavo Renato Fiscarelli e Luis Carlos Vendramin Júnior, decidimos criar algo mais que um manual técnico. Desenvolvemos um guia multidisciplinar de 400 páginas que conecta teoria e prática de forma acessível, desde explicações didáticas sobre algoritmos até discussões aprofundadas sobre ética, privacidade e marcos legais.
O livro apresenta aplicações revolucionárias já testadas: detecção inteligente de fraudes, automação de processos registrais, análise preditiva de estatísticas vitais e sistemas de atendimento por assistentes virtuais. Mas também oferece algo fundamental – um roteiro estratégico para implementação gradual e sustentável da IA, respeitando a autonomia das serventias e a descentralização característica do sistema brasileiro.
Incluímos experiências internacionais relevantes e um extenso glossário técnico, tornando a obra acessível tanto para registradores experientes quanto para novos profissionais. Cada capítulo foi pensado para ser consultado independentemente, funcionando como referência prática no dia a dia dos cartórios.
Nossa ambição é que este livro se torne o marco referencial para construir um Registro Civil verdadeiramente moderno no Brasil – mais seguro, acessível e eficiente, mas sempre preservando a fé pública que nos caracteriza. Queremos democratizar o conhecimento sobre IA no setor registral e empoderar cada registrador a liderar essa transformação em sua própria serventia.
É, fundamentalmente, um convite para construirmos juntos o futuro da cidadania digital brasileira.
Fonte: Assessoria de Comunicação – Arpen/RS
